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A Velha Casa de Luiz Pacheco em Lisboa


Texto de Luiz Pacheco
Encenação: João Garcia Miguel
Espaço Cénico: Rui Viola
Intérpretes: Ana Santos, Isa Araújo, João Pedro Santos, Rosa Abreu, Sara Ribeiro







Apresentações
14 de NOVEMBRO a 20 de DEZEMBRO
de 5ª a Sábado às 21Horas
- Sessões continuas de 30 em 30 minutos -








LOCAL: Rua dos Remédios, nº 57, 1º Andar - Alfama - Perto do Museu do Fado - Metro: Santa Apolónia - LISBOA








Co-Produção: JGM / FIAR
Apoio: Junta de Freguesia de Santo Estevão e PERVE Galeria
Estrutura financiada pela Direcção Geral das Artes e MC
JGM é um artista associado do ESPAÇO do TEMPO





http://avelhacasa.blogspot.com/

http://flickr.com/photos/28547142@N00/3033236592/

http://joaninhaavoar.blogspot.com/2008/12/velha-casa.html

As Criadas de Jean Genet no CCB

Encenação João Garcia Miguel
Tradução e adaptação do texto João Garcia Miguel a partir de Les Bonnes de Jean Genet Interpretação Anton Skrzypiciel, Miguel Borges e João Garcia Miguel Música Rui Lima e Sérgio Martins Figurinos Ana Luena Desenho de Luz e Direcção Técnica Luís Bombico Realização Vídeo Edgar Alberto Apoio ao Espaço Cénico Mantos







Edição e Operação Vídeo e Fotografia Miguel Nicolau Produção Executiva Marta Vieira Registo Documental Raquel Freire Assistente de Figurinos Catarina Felgueiras Operação de Legendagem Nuno Correia
Residência artística O Espaço do Tempo Convento da Saudação
Co – Produção João Garcia Miguel e Fundação Centro Cultural de Belém
Estrutura Financiada Ministério da Cultura Direcção-Geral das Artes e Fundação Calouste Gulbenkian
João Garcia Miguel é um artista associado do Espaço do Tempo






Espectáculos:
Dias 13,15,18,19 e 20 de Setembro às 21h
Dia 14 às 17h
Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém
M/16

“(…) As criadas de João Garcia
Miguel são toda uma outra
história. A matriz do espectáculo
é intra-teatral e problematiza
essencialmente questões de
linguagem e de comunicação nas
artes. Afasta-se elegantemente
das questões sociais e/ou
filosóficas convocadas pelo texto
para se instalar confortavelmente
na dimensão ritualista e
cerimonial da dramaturgia de
Genet. Trata-se com efeito de
uma actualização compreensível
até porque o tema apresentado
dificilmente criará alguma
empatia com o espectador actual;
e é tanto mais compreensível na
medida em que coloca o texto
de Genet no centro de uma
discussão em curso na prática
cénica contemporânea sobre
questões de representação do
discurso, sobre o corpo do actor,
sobre a noção de personagem, e,
aqui em especial, sobre género e
identidade. Desde logo, a escolha
por três intérpretes masculinos
(Miguel Borges: Claire; Anton
Skrzypiciel: Solange; João Garcia
Miguel: Madame) provoca um
afastamento de uma leitura em
que os referentes reais são mais
visíveis para se colocar no campo
da reflexão sobre a identidade e
o género.(…)”

Excerto de: “A senhora dança?
Do you dance?
La Madame danse?”,
In Público, 17 de Setembro de 2008.
Rui Pina Coelho

As Criadas - Estreia

As Criadas
ESTREIA: 13 de Setembro de 2008 às 21 horas no Pequeno Auditório do CCB, Lisboa
Press: Jornal de Notícias, 13/9/08 VISÃO, 13/9/08 CCB

Quero deixar visível, neste trabalho, a evolução do processo. Assim, porque fui realizando textos, a que por disciplina e método apelidei de sinopses, pretendo agora propor uma deslocação por essas marcas da minha hesitação, das minhas tentativas de regressar à ordem, à superfície ou à luz das coisas do mundo, depois de mergulhar no caos de uma proposta de criação. Deste modo proponho a edição destes quatro textos sinopses, agora na ordem cronológica inversa da sua produção. O questionar que acompanha o gesto criativo, está também aqui impresso e é um instrumento de reflexão adicional para o espectáculo As Criadas.
JGM

Residência artística: Espaço do Tempo, de 21 de Julho a 17 de Agosto de 2008. http://residenciadascriadas.blogspot.com/
Um projecto de João Garcia Miguel com Miguel Borges e Anton Skrypiciel a partir de as criadas de Genet.
ODE MARÍTIMA de Álvaro de Campos
Espectáculo por João Garcia Miguel

Dias: 15, 16 e 17 de Abril, pelas 21h30
Local: Sala de Exposições do Museu da Electricidade

»»»Mais informações»»

IMPRENSA
Estreia
Lisboa, Jan2007
Cartaz do Expresso, Jan07

Diário Digital, Jan07
Cartaz do Expresso, Fev07

MADE in EDEN - Video

"Made in Eden (...) in Sic Noticias, dia 5 de Novembro de 2007

MADE IN EDEN - An ode to my dead friends - Estreia

Made in Eden, an ODE to my dead friends
Teatro da Politécnica

A velocidade tornou-se uma obsessão. Sinto no entanto os seus efeitos como um desafio, um sabor que se espraia pelo corpo lentamente, como um animal que se espreguiça por dentro de outro animal. Um ocupante desejado e estranho em simultâneo, que se desdobra continuamente e pronuncia um monologo incessante. Vozes soltas à solta dentro de um corpo. Vozes desordem que lutam por uma sombra, por uma parede onde ecoar. Aos poucos outros ocupantes vão perdendo o medo levantam-se dos escombros sacodem o pó e falam a medo primeiro, com alegria depois, a surpresa de estarem vivos a que se sucede o desejo infantil de tudo experimentar, de tudo querer, de tudo destruir. As pedras substituem as palavras e os risos são facas e carícias, cortam e chocam, deixam passar a corrente, golfadas pequenas, pontapés e pelos eriçados. A Guerra começou aonde?(...)
JGM



olá guruzão,

...tenho algumas palavras para partilhar sobre a "ODE to..." valem o que valem...assim mesmo em bruto.

Independentemente da base do espectáculo, os escritos de Aníbal L. Canibal, não me dizerem nada em particular, o facto de na maior parte do tempo não estarem à superfície, ajudou.
O ambiente inicial Abriu-me um espaço-bolha, onde as células seguintes me estimulam a desencadear ligações internas, que me direccionam e emocionam mais ou menos. É um momento essencial de construção e caminhada. São a forma e consistência da peça. Onde nos ambientamos e reconhecemos o arquivo a que vamos aceder nos próximos momentos. Aí começamos a desfrutar ou vamos embora. Não sei porque estou a escrever isto...adiante.
Pois, já sei. Os primeiros momentos foram brutais, fabulosa interpretação...aquela personagem, os seus sons, movimentos e gestualidade...a projecção do jardim...a manipulação sonora do barulho das pedras...excelente. Todos os elementos se entranhavam uns nos outros com uma organícidade superior.
Quando a s portas se abrem e se vê o jardim, existe qualquer coisa que desaparece naquela magia anterior...se calhar era propositado, o jardim ser desagradável e humanizado...não sei se a luz lá dentro não devia ser diferente...apesar do sol...e ver o autocolante de saída de emergência até me arrepiou...pormenores...
Outro arrepio é mais `frente, quando o texto toma conta da cena..., dito por inteiro, não sei bem quem eram aquele homem e aquela mulher que de repente ali apareciam... todo o imaginário que comungamos e por onde deambulamos estupefactos a flutuar, (através da interpretação do Luís, opções cenográficas, manipulação sonora e ambientes num ritmo excelente), desaparece como se uma bolha de sabão rebentasse ali nas nossas expressões boquiabertas, e o sabor do detergente nos fizesse franzir a cara...propositado? Objectivo mais que atingido.
A cena da ida repetidamente da cadeira ao armário levar calhaus, o ritmo, a movimentação, a gestualidade, a relação, o riso estridente e o culminar com a ida dela à porta e voltar e ir e voltar e ir e voltar e não ser ninguém, e não ser ninguém e não ser ninguém...é um momento muito bom.
Agradou-me a certa atura sentir que estava a ser manipulada no sentido inverso, e que aquela múmia/canibal/homem estava em transformação inversa na direcção do comum dos mortais...ao entrares no jardim, transformas-te em homem e esse é o teu pior pesadelo...mas não...existiram momentos em que perto do final o homem apareceu pela identificação a rotinas/situações/ obsessões/ Taras humanas...mas não resultaram, eram demasiado pontiagudas para a nossa bolha, demasiado banais na sua exposição algumas... se não fosse o brilhantismo da construção da personagem do Luís e a força com que nos agarra....matavam a peça...
Porque é que se sentiu que se investiu tanto na caracterização dele (que o ajudou muito na eficácia da personagem) e nada na dela? (podia não estar lá a moça, tirando a cena dos risinhos em que vai à porta repetidamente e não é ninguém...)
A ideia dos estilhaços seduz-me. As repetições das tarefas. Os vários episódios. A desconstrução em cacos do texto. O rio que corre debaixo do jardim. O cíclico da forma.
A cena dos sofás é muito má...quando andam aos gritinhos a fazer poses equilibristas...talvez se não se visse...só o som e o barulho...e a imagem das tvs...A gestualidade do Luís no final, quando “regressa” à múmia, fica mesmo no limite do ser demais os braços levantados à frente...
Foi um bom espectáculo.
Obrigada a todos os intervenientes.

Ana Santos



MADE IN EDEN - An Ode to my dead friends
http://made-in-eden.blogspot.com/
Estreia: 7 de Novembro de 2007
Teatro da Politécnica, Lisboa
em cena até 2 de Dezembro às 21h e 30m,

dias 30 de Novembro, 1 e 2 de Dezembro às 16 horas.

"Made in Eden - an ode to my dead friends"
Em cena no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a partir de quarta-feira

in SicOnline.

(...) João Garcia Miguel afirma ser um recado para a sua geração: “Começas a ter poder, perdes essa capacidade de viver a vida intensamente”. “Made in Éden” é selvagem e cómica, às vezes grotesca, outras clarividente. Uma espécie de peça de teatro punk.



Made in Eden
de João Garcia Miguel e Miguel Moreira
com Luís Guerra e Sara de Castro,

in Cartaz.expresso.clix.pt

(...) Peça criada a partir de "Epístolas de Guerra", textos publicados no livro Estilhaços, de Adolfo Luxúria Canibal, Made in Eden - An Ode to My Dead Friends cria uma narrativa que os autores consideram "lacunar e irreal". (...)


Co-Produção: JGM ÚTERO O BANDO ESPAÇO DO TEMPO
Encenação e Dramaturgia : João Garcia Miguel
Coaching: Miguel Moreira
Texto – a partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal
Interpretação: Luís Guerra e Sara de Castro

Cenografia: Mantos e Pedro Santos Figurinos: Miguel Moreira Música: Sérgio Martins e Rui Lima Fotografia: Miguel Nicolau Adereços: Jorge Sacadura Produção Executiva: Marta Vieira

Acolhimento: Teatro da Politécnica / Teatro Nacional D. Maria
Residência Artística: Manifestos Estilhaços - Convento da Saudação Estrutura Financiada por: Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes / Fundação Calouste Gulbenkian Apoios: Teatro da Politécnica / Teatro Nacional D.Maria II / Casa D’Os Dias da Água.

FAZER BOM USO DA MORTE - Estreia

Casa d'Os Dias da Água,
de 3 a 15 de Julho de 2007




MORRAM BEM TODOS OS DIAS POR FAVOR




Podemos nem sequer pensar nisso e ter sorte e a morte cair morta aos nossos pés. podemos dormir com a morte na garganta e acordar com ela enroscada nos pés? podemos não morrer fazendo uma máquina que mantenha o corpo sempre em transformação e não deixar que a morte o pára de se modificar? a morte é uma mentira? morte à morte e a quem a apoiar! podemos matar-nos antes de morrermos?




Podemos pensar que a morte não dura sempre, a morte não dura para sempre como a vida e o tempo, ou podemos pensar que não temos vida para morrer, que não temos ainda uma vida suficientemente vivida para podermos dar-nos ao luxo de morrer? e podemos morrer de cócoras ou morrer de pé ou morrer em cima de uma nuvem, ou morrer esmagados por uma pedra que cai do céu, podemos morrer debaixo de um lencol, podemos morrer em cima de um alfinete, podemos morrer com escamas nos pés, podemos mudar de cor ao morrer, podemos morrer e fazer um bom uso da morte.









Vamos fazer uma peça de teatro ou lá o que isso é a partir de um texto de Pasolini que nos deu umas ideias sobre a morte e os gajos que querem ou que são mesmo sem querer qualquer coisas mais que apenas uns animais e que podem ou que conseguem por vezes sem querer ou por querer olhar a morte de lado e depois com mais um esforço pequenino e minusculo olhar a morte de obliquo e depois olhar a morte por detrás pelo rabo e depois ohar para si mesmo e perceber qe aquele sinal que ali começa a crescer não é o pecado venial mas a morte a alastrar e que até nisso a morte deles é unica e diferente das mortes que vêm nos livros e das mortes que todos os outros morreram até hoje
.....
jgm



FAZER BOM USO DA MORTE - Ensaios





A pensar sobre a morte e as mil e uma maneiras de fazer um bom e um mau uso da morte....
Ajudem por favor a morrer com jeitinho....
Ajudem me a matar com carinho e amor pelo próximo que vai morrer
Ajudem me por favor que morro e nem dou conta disso
Ajudem me mas é o caralho que vos foda a todos






Eu não quero a vossa morte para nada que cheira mal que se farta e eu tenho o nariz muito sensível e preciso de cheirar a minha morte quando ela vier
Tirem me daqui a vossa morte por favor que eu peço vos com jeito que vão morrer longe para lá dos subúrbios tão longe que nunca mais cá cheguem pois o vosso longe é tão perto do fim que nem transportes lá existem nem o governo quer saber que terra é essa onde se faz bom uso da morte e as farmacêuticas fizeram um cordão sanitário de segurança em volta da vossa terra de mortas e de mortos.

Morram bem por favor

ODE MARÍTIMA - Estreia

Casa d'Os Dias da Água, Lisboa
20/01/2007 - 30/02/2007


Ode Marítima de Álvaro de Campos,
interpretado por João Garcia Miguel.

Encenação de Alberto Lopes




Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...


Cartaz do Expresso,
3 de Fevereiro de 2007
Depois de um clássico outro clássico, embora já não teatral.Rei Lear, de William Shakespeare, foi o último texto que João Garcia Miguel trabalhou, mastigando-o como um hambúrguer e voltando a oferecê-lo sob o título Burgher King Lear.


-lo com Miguel Borges e Anton Skrzypiciel.Sem personagens e acção, João Garcia Miguel sobe agora ao palco com as palavras de Álvaro de Campos, sob direcção dramaturgia e som de Alberto Lopes, em Ode Marítima.


Uma leitura "que progride até que o texto se revela como entidade coisa independente e segura".





QUARTA-CRESCENTE
2007-02-21
Risoleta Pinto Pedro

“A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar”
Álvaro de Campos
Um cais sobre um palco. Nevoeiro. E a voz, a inesperada voz. Ainda a ouço. Foi, não sei há quantos dias, foi, seguramente há umas semanas. Mas ainda a ouço, ainda lhe sinto as inflexões. Às vezes dou comigo a “inflexionar” como A VOZ. Com a voz? Ou a reconhecer pequenas inflexões suas em intervalos musicais de outras vozes. Como descrevê-la? A voz é de um actor? Ou de Álvaro de Campos? Ou de um marinheiro, deus marinho ou estivador? Comandante de um navio? Ou Fernando Pessoa? O programa refere um nome: João Garcia Miguel, actor, o intérprete da “Ode Marítima” na Casa dos Dias da Água. Foi lá que ouvi a VOZ. Já acabou, fui ver o penúltimo espectáculo porque me convidaram, e para poder aconselhar os meus alunos. Porque isto de se aconselhar teatro aos alunos sem ver antes, é um enorme risco. Risco para o teatro, risco para um caso de amor ao teatro em que pode tornar-se uma ida ao teatro se o (a)caso for feliz. Tenho alunos que depois de terem visto algumas peças ficaram para sempre rendidos; vão ver seja o que for que eu lhes proponha, se for teatro.

Daí a grande responsabilidade. Porque também pode acontecer o contrário. Por isso, fui ver. Conheço o texto, conheço o contexto. Não sabia da voz. Foi a primeira surpresa. Ainda não se via o actor, já se ouvia a voz, e eu pensei: “Como é que é possível que eu nunca tenha ouvido esta voz?!”; porque a reconhecia; não de a ter ouvido, mas de a ter “reconhecido”. Poderão perguntar-me agora: “Mas é possível reconhecer uma voz que nunca se ouviu?”.

Respondo-vos eu que sim. É possível reconhecer uma voz que nunca se ouviu. “Como?”. “Não sei.” Poderia convidar-vos a imaginarem um monólogo de uma hora e meia: a “Ode Marítima” do engenheiro Álvaro de Campos ao vivo e no nevoeiro; por isso, poucas cores. Movimentação sóbria, adequadamente espástica num ou noutro momento, expressão q.b., nunca de menos, nunca demais excepto quando o texto não permite que seja de outra maneira.

E a voz. Sozinha, “no cais deserto”, olha “prò Indefinido”, que somos nós, e diz-nos o que vê: “um paquete entrando”, e descreve-se, sem se descrever: “Mas a minh'alma está com o que vejo menos.”. É a voz que o “trai”: ora cheia de “silêncios rumorosos”, ora “desabrochando… num ruído” paradoxalmente “cor de silêncios” … “Soa no acaso do rio” e através desta voz “Chamam por mim os mares.” É um chamamento, “esse grito tremendo de um contador de histórias marítimas que parece soar de dentro duma caverna cuja abóbada é o céu”. Recordas-te, Voz?: “ (Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas, E dizias assim, pondo uma mão de cada lado da boca, Fazendo porta-voz das grandes mãos curtidas e escuras: Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-yyyy... Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyyy...)” Já passaram alguns dias, mas ainda hoje “Escuto-te de aqui, agora” e desperta, ainda que alguns sons me cheguem como eco de “um ruído cego de arruaça”, ou de “volante a girar no centro do peito”, como um “clamoroso chamamento”, falando, chorando, gritando, interrogando, evocando, cantando, repetindo, silenciando.
Terminada a representação, apenas me restava “partir como voz”… “No silêncio comovido da minh'alma...” Afasto-me a cantar como um mar ao longe, mas “a canção é uma linha recta mal traçada dentro de mim...”, a canção é este misterioso magma alquímico criado por um texto, um corpo, um ambiente e uma voz. Se a tivesse ouvido, o engenheiro Álvaro de Campos teria composto uma ode qualquer, talvez uma Ode à Voz, quem sabe?, de pé e num jacto, como costumava escrever.

risoletapedro@netcabo.pt
http://risocordetejo.blogspot.com/

BURGHER KING LEAR - Estreia

Black Box (Montemor-o-Novo)
17.11.2006 - 18.11.2006
Casa D’Os Dias da Água, Lisboa
28 de Novembro a 10 de Dezembro

O rei está louco! O rei não sabe para onde nos leva! Cruéis tempos se avizinham! Houve um tempo em que o rei matava todos com a sua espada! Mas agora o rei não tem força para a levantar! O rei está velho! O rei vai morrer! O rei não quer morrer! Que o rei morra depressa! O rei partiu a sua coroa ao meio e abandonou o castelo! O rei está louco! O rei não sabe para onde vai! O rei não quer ser rei! Cruéis tempos se avizinham! O rei quer morrer!

The king is mad! The king knows not where he leads us! Cruel times are afoot! There was a time when the king would slay all! But now the king can’t even master up the strength to lift it his sword! The king is old! The king is going to die! May the king die soon! The king broke his crown in half and abandoned the castle! The king is mad! The king knows not where he’s going! The king does not want to be king! Cruel times are afoot! The king wants to die!


Traduzi e esquartejei o texto de Shakespeare criando uma versão bilingue para dois actores, um australiano e um português. Trabalhei ao mínimo o que me pareceu substancial: a história do pai e das suas três filhas! A história de um homem que por um acaso dos homens é rei; a história de um rei que se sente velho e quer voltar a ser homem! A história de um homem que pede às suas filhas que lhe digam qual delas o ama mais! Em troca da sua confissão dar-lhes-á um terço do seu reino.

I dissected Shakespeare’s text creating a version for two actors: an Australian and a Portuguese.
I kept untouched what I felt was most substantial: the story of the father and his 3 daughters! The story of a man who, by chance of chances, is king; the story of a king who feels old and wants to go back to being a man. The story of a man who asks his 3 daughters to tell him which one of them loves him the most luring them to answer with the promise of 1/3 of his kingdom.


Se as duas primeiras, movidas pela ambição, lhe oferecem uma definição canónica; a sua preferida não entra no jogo pois um tão cavado amor não é descritível. Do equívoco que tão pouco convencional resposta gera abre-se uma porta imensa, deixando sair incontroláveis forças ocultas, que enlouquecem e destroem tudo por onde passam.

If the first two, moved by ambition, offer him a sugary, over the top confession, his favourite daughter does not play the game, for such a deep love cannot be put into words. From the misunderstanding of such an unconventional answer a door is open letting out uncontrollable dark forces which madden and destroy everything they touch.






Realcei a luta pela sobrevivência e o carácter frágil dos personagens, perante essas forças que vêm de dentro de cada um deles; a luta trágica que se desenrola por dentro e por fora, que os conduz à cegueira e à loucura, acabando por se matarem uns aos outros, e por fim matarem-se a si próprios, como a única saída possível para apaziguar as forças destruidoras desencadeadas.

I focused on the character’s frailty when faced with those forces rising from within and their fight for survival. The tragic struggle taking place from the inside out leading them to blindness and madness and ultimately to killing each other and killing themselves as the only possible way to appease the destructive forces they unleashed.

Mais uma vez, aproveito para falar do tempo, aliás dos tempos, da transformação e da metamorfose; guardo para mim a imagem de um homem criança numa praia ao anoitecer que tenta lançar um papagaio vermelho e branco que cai repetidamente. Ao recolher o papagaio, o homem fica com um novelo de fio embaralhado nas mãos, que entre o desespero e a clarividência procura desembaraçar e estender no chão. Por vezes o fio parte-se e o homem procura atar as pontas quebradas. As suas mãos tremem de frio e medo, o fio vai-se enleando numa teia que arrasta consigo pedaços de plantas mortas, areia, agua, detritos, restos de papéis. O homem pela praia, primeiro de pé, depois dobrado, de gatas, rastejando, paralelamente ao mar, até desaparecer transformando-se numa neblina que cobre a areia e o mar até se desfazer no escuro da noite.

Once again I speak about time, or rather, about the times, about transformation and metamorphosis. I hope I find a path that may guide the audience, a path which allows us to meet again these extinct men from an era long gone and recognise what they left us as inheritance.








O encanto de trabalhar um texto destes, prende-se com o desafio, com a quantidade de ressonâncias que se despoletam, com a descoberta que se faz por nós mesmos. Espero encontrar um caminho que possa agora partilhar com o publico, um caminho que permita reencontramo-nos com estes homens extintos, saídos de uma época que não existe mais e reconhecer aquilo que nos deixaram em herança.

The change in the title has a double intention ironic and critical, for we manipulate and transform Shakespeare’s text as if it were a hamburger; at the same time we work the dimension of ordinary man and citizen which the king presents, the abandon of his responsibilities to rule and the relationship with his daughters. The piece ended up being a different being from that which it was bred from focusing on the contemporaneity of the text and the theme we initially wanted to work: the hazard and our passions.

A alteração do título tem uma dupla intenção irónica e crítica, porque manipulamos e transforma-mos o texto de Shakespeare como se fosse um hamburger; em simultâneo trabalhamos a dimensão de homem comum e cidadão, que o rei apresenta, o abandono das suas responsabilidades de governação e a relação com as suas filhas. A peça acabou por se tornar um ser diferente daquele a partir do qual foi gerado, acentuando a contemporaneidade do texto e a temática que entrecruza o acaso e as nossas paixões.
Lisboa, Setembro de 2006
João Garcia Miguel


Direcção e Encenação: João Garcia Miguel
Tradução e Adaptação do texto: João Garcia Miguel, a partir de King Lear de William Shakespeare
Interpretação: Anton Skrzypiciel e Miguel Borges
Cenografia e Figurinos: Ana Luena
Caracterização: Jorge Bragada
Desenho de luz e direcção técnica: Mário Bessa
Operação de Luz e Montagem: Daniel Verdades
Operação de Legendagem e Montagem: João Garcia Miguel e Mantos
Música: Rui Lima e Sérgio Martins

Co-Produção: JGM e Espaço do Tempo e Casa D’Os Dias da Água


Ana Maria Duarte in Semanário,
Reflexões contemporâneas,2006-12-06
Shakespeare e bisturi"Burgher King Lear" é uma peça de João Garcia Miguel, residente na Casa d'Os Dias da Água. Após a participação no Festival Fringe, em Edimburgo, o maior festival de artes performativas, onde levou "Especial Nada", uma peça baseada nos Diários de Andy Warhol, João Garcia Miguel regressa à Casa, com "Burgher King Lear", numa tradução livre de "King Lear", de Shakespeare. Trata-se de uma versão bilingue em inglês/português para dois actores, um de nacionalidade portuguesa (Miguel Borges), outro australiano (Anton Skrzypiciel). João Garcia Miguel retoma aqui a temática do tempo, da transformação e da metamorfose, conceitos trabalhados ao longo do seu percurso. "Burgher King Lear" tem uma dupla intenção, irónica e crítica, já que o texto foi trabalhado como se de um hambúrguer se tratasse. O texto original foi apropriado de forma pessoal pelo autor, que decidiu não lhe introduzir alterações de substância, reduzindo-o antes ao que considerou de maior relevância. Nas palavras de João Garcia Miguel, "traduzi e esquartejei o texto de Shakespeare criando uma versão bilingue para dois actores (...). Trabalhei ao mínimo o que me pareceu substancial: a história do pai e das suas três filhas! A história de um homem que por acaso dos homens é rei; a história de um rei que se sente velho e quer voltar a ser homem! A história de um homem que pede às suas filhas que lhe digam qual delas o ama mais! Em troca da sua confissão dar-lhes-á um terço do seu reino."São realçados aspectos como o carácter frágil das personagens na sua luta pela sobrevivência e o conflito trágico que se desenrola no interior de cada uma delas. Abordam-se questões relacionadas com a dimensão do homem comum: o Rei que abandona as suas responsabilidades de governação e a relação entre o Rei e as suas filhas. Este espectáculo acentua a contemporaneidade do texto e a temática que entrecruza o acaso e as nossas paixões.

IMPRENSA

HISTÓRIA DE UM MENTIROSO - Estreia

Casa de Teatro de Sintra e Casa D'os Dias da Água
22/05/2006 - 30/07/2006


Peer Gynt foi apanhado, não por ser coxo, mas por ser mentiroso. “Não me mereço”, “necessito de tempo para pensar”, “um homem que é ele mesmo, aí é que está o problema, eu sou eu mesmo do princípio até ao fim”, diz Gynt, ou será que mente? Ele sonhou ser imperador, procurou a glória pessoal e resistiu aos golpes do destino. Quando parecia ter dado o melhor para ser ele próprio, Gynt descobre que é um grandioso fracasso e que a sua vida é uma mentira colossal. No fim, é apanhado pelo amor, perde a alma e morre. Em torno do épico do norueguês Henrik Ibsen, João Garcia Miguel criou um espaço surpreendente onde narrativa, música e poesia contam a viagem do homem ao encontro de si mesmo. É o teatro da razão pura que discute o indivíduo e o seu papel no mundo. Ou será tudo mentira?
Vera Peneda in LeCool Magazine

Inventámos o amor para que a vida seja mais do que apenas uma existência confinada a nós mesmos. Dizer isto é uma mera banalidade, uma formalidade, mas o óbvio existe para que alguém o diga. Somos fruto daquilo que alguém pensa de nós, um outro qualquer, um deus talvez? Ao trabalhar sobre Ibsen aprendi muitas coisas que julgava já saber; aprendi a importância de compreender que vivo numa constante ilusão, que todos os dias da minha vida julguei desvelar, contudo ela ergue-se sem cessar na minha relação com o mundo e nos olhos dos outros. Para a frente ou para trás é sempre a mesma distancia, para dentro ou para fora o caminho é sempre estreito. A vida é uma grande curva e nós seguimos sempre em frente.
Para a interpretação deste trabalho, convidei dois músicos, porque desejo construir uma peça musical, onde a narrativa, a poesia e a música se vão confrontar. Consigo também antecipar, o prazer de retomar a construção artesanal e infantil do espaço, que funcionará como uma casa de surpresas, ou quarto de brinquedos. Um espaço que suporte o desenrolar da vida do personagem de Ibsen, Peer Gynt na sua viagem ao encontro de si mesmo, procurando evitar que a sua alma se dilua num monte de lixo.

Encenação: João Garcia Miguel
Texto: João Garcia Miguel, a partir de Peer Gynt de Henrik Ibsen
Interpretação e Música: Rui Lima e Sérgio Martins
Cenografia: Mantos
Figurinos: Alexandra Moura
Vídeo: Nave
Direcção de Produção: Maria João Fontainhas
Produção Executiva: Catarina Nevesdias e Marta Vieira
Desenho de Luz e Som: André Rabaça
Fotografia e Design Gráfico: Ana Lúcia Cruz
Secretariado de Produção: Cláudia Gomes
Montagem: Pedro Tomé
Apoio: Casa d’Os Dias da Água
Co-Produção: JGM e Companhia de Teatro de Sintra

A ENTREGA - Estreia

Casa de Teatro de Sintra ,
21h30 12.01.2006 - 05.02.2006

As chaves
A peça fala de chaves. De homens e mulheres que funcionam como chaves, para a vida, para o amor, para um poema e para a morte. Fala da construção de um homem pequenino que servirá de chave para que outros homens e mulheres possam entrar num outro nível da realidade.
Sonham-no, constroem-no, dão-lhe um corpo e uma vida que ele acaba por recusar ou da qual se retira imperceptivelmente.
É um mundo onde as pessoas se encontram e se aceitam, de um modo que não é suposto, e onde tudo é consequência, pois estas antecipam as causas.
O que é a vida, pergunta o pequenino?
Matar dragões, libertar princesas e derrotar lobisomens? É isso que é a vida! Aqui neste mundo somos todos hipersensíveis, pessoas que apanham tudo o que se perdeu e não deixamos escapar nada.
Tudo tem tanto sentido, que tanto faz estarmos ou começarmos, num qualquer lado ou momento; é sempre diferente. Tudo parece lógico, desde que seja ou esteja exterior a nós, e não há permanente, nem um autocarro cheio de mensagens a chegar.

The keys
The play speaks of keys. Of men e women who function as keys for the life, for love, for a poem and for death. It speaks of the construction of a tiny man who will serve of key so that other men and women can enter in another level of the reality.
They dream it, they construct it, and they give to him a body and a life that he refuses or of which he removes/exit almost invisibly. It is a world where the people meet and accept each other, in a way that is not suppose, and where everything is consequence, therefore these anticipate the causes.
What is the life, asks tiny? To kill dragons to free princesses and to defeat werewolves? That’s the life! In this world we are all hypersensitives, people who catch everything what was lost and we do not let anything escape.
Everything has so much sense, that as much we stand or start, in one any side or moment; it is always different. Everything seems logical, since that is or would be exterior to us, and does not have permanent, nor one bus full of messages to arrive.

Encenação de João Garcia Miguel
Texto - João Garcia Miguel e Luís Vieira;
Encenação - João Garcia Miguel;
Assistência de Encenação - Tiago Matias;
Cenografia - Mantos;
Figurinos - criação colectiva;
Interpretação - Anabela Teixeira, Cristina Basílio, Luciano Amarelo e Nuno Correia Pinto;
Desenho de Luz e Imagem Gráfica - André Rabaça

Fotografia - André Rabaça e João Garcia Miguel
Direcção de Produção - Maria João Fontaínhas
Produção Executiva - Catarina Nevesdias e Marta Vieira
Secretariado de Produção - Cláudia Gomes e Laurinda Andrade
Operação de Luz e Som - André Rabaça
Direcção Técnica e Montagem - Nuno Correia Pinto
Montagem - André Rabaça e Pedro Tomé


Co-Produção JGM com a Companhia de Teatro de Sintra