A ENTREGA - FITEI 2006

Teatro do Bolhão - Porto
31 de Maio de 2006, pelas 18h e 30m
O Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI): um paradigma dos festivais contemporâneos

Não importa quais sejam os meios de transporte e quão próximas ou distantes as procedências, todos os artistas que participam de festivais internacionais de teatro se juntam em uma cidade para mostrar seus espetáculos, suas concepções estéticas particulares e o contexto cultural que as sustentam. As diacronias de múltiplas histórias, a do festival, a dos grupos participantes se imantam em uma sincronia que une o talento e a criatividade de distintas culturas e estéticas. Os grupos convidados, ávidos por aprender algo novo, se observam entre si, comparam seus modos de atuação, suas cenografias, tudo aquilo que rompe com qualquer convenção teatral. Da dinâmica interação desses dois encontros, surgirão férteis e recíprocas influências que redundarão em produtivas intertextualidades e novas propostas estéticas. Entre os muitos festivais internacionais que se celebram no mundo ibero-americanos, o FITEI se destaca como um dos mais antigos.

Como ocorre faz 29 anos, Porto em 2006 recebeu, uma vez mais, artistas de teatro provinientes de Portugal, Espanha, América Latina e Africa para dar vida ao FITEI. Em seu discurso de abertura Mário Moutinho, o novo Presidente do FITEI, convidou a todos os assistentes a "fazer do FITEI uma festa para todos". Porto é uma cidade litorânea e seus habitantes gozam da frescura do vento e do azul marinho. Como bons marinheiros sabem driblar os choques das ondas e a fúria dos ventos, que de vez em quando, golpeiam as costas atlânticas. Não é de se estranhar, pois, que apesar de todos os obstáculos burocráticos e ecônomicos que seus organizadores tiveram que driblar nos últimos anos, o FITEI frente, vento em popa, com a mesma vitalidade e consigna: reunir o melhor do teatro ibérico, mas não qualquer teatro, senão um teatro sempre humanista, que tem como meta a perfeição do homem, do homem como sonhador e (im)possíveis utopias, que talvez nunca consiga alcançar, mas que no caminho até elas, se faz melhor.

De 29 de maio ao 9 de junho de 2006, na 29ª edição do FITEI, participaram 14 grupos, uns com imponentes coreografias e numerosos atores, como As mil e uma noites do Comediants de Barcelona, outros mais modestos, minimalista, grotowskianos, mas igualmente transbordantes de criatividade, como foi o caso de Peripécia Teatro, de Macedo do Cavaleiros-Portugal, que em sua paródia Ibérica a Louca História de uma Península, conseguiu uma ovação tão entusiasmada como a que recebeu o espetáculo do Comediants.

Revisitação de textos clássicos ou canônicos

(...)Também se contou com outros dois textos canônicos de dramaturgos do século XX, Zoo Story de Edward Albee encenado pelo Centro Dramático de Viana/Teatro Noroeste de Viana de Castelo e A Entrega, da Companhia Teatro Sintra, cujo texto, inspirado na biografia e obras de August Strindberg foi escrito e encenado por João Garcia Miguel.

(...)

A Entrega, como a obra de Albee, trata das complexidades das relações humanas que nunca podem desenvolver-se com plenitude. A vida de Strindberg (golpeada por divórcios, pela rejeição da sociedade) e sua linguagem simbólica, imaginativa e poética, transpareceu nesta adaptação de Garcia Miguel, cheia de situações imprevisíveis que irritava e remexia o espectador envolvido em uma espetaculariedade na qual se refletia sua própria precariedade existencial.(...)

Excerto retirado de: GESTOS 42 (Novembro 2006) in Cooperativa Paulista de Teatro

HISTÓRIA DE UM MENTIROSO - Estreia

Casa de Teatro de Sintra e Casa D'os Dias da Água
22/05/2006 - 30/07/2006


Peer Gynt foi apanhado, não por ser coxo, mas por ser mentiroso. “Não me mereço”, “necessito de tempo para pensar”, “um homem que é ele mesmo, aí é que está o problema, eu sou eu mesmo do princípio até ao fim”, diz Gynt, ou será que mente? Ele sonhou ser imperador, procurou a glória pessoal e resistiu aos golpes do destino. Quando parecia ter dado o melhor para ser ele próprio, Gynt descobre que é um grandioso fracasso e que a sua vida é uma mentira colossal. No fim, é apanhado pelo amor, perde a alma e morre. Em torno do épico do norueguês Henrik Ibsen, João Garcia Miguel criou um espaço surpreendente onde narrativa, música e poesia contam a viagem do homem ao encontro de si mesmo. É o teatro da razão pura que discute o indivíduo e o seu papel no mundo. Ou será tudo mentira?
Vera Peneda in LeCool Magazine

Inventámos o amor para que a vida seja mais do que apenas uma existência confinada a nós mesmos. Dizer isto é uma mera banalidade, uma formalidade, mas o óbvio existe para que alguém o diga. Somos fruto daquilo que alguém pensa de nós, um outro qualquer, um deus talvez? Ao trabalhar sobre Ibsen aprendi muitas coisas que julgava já saber; aprendi a importância de compreender que vivo numa constante ilusão, que todos os dias da minha vida julguei desvelar, contudo ela ergue-se sem cessar na minha relação com o mundo e nos olhos dos outros. Para a frente ou para trás é sempre a mesma distancia, para dentro ou para fora o caminho é sempre estreito. A vida é uma grande curva e nós seguimos sempre em frente.
Para a interpretação deste trabalho, convidei dois músicos, porque desejo construir uma peça musical, onde a narrativa, a poesia e a música se vão confrontar. Consigo também antecipar, o prazer de retomar a construção artesanal e infantil do espaço, que funcionará como uma casa de surpresas, ou quarto de brinquedos. Um espaço que suporte o desenrolar da vida do personagem de Ibsen, Peer Gynt na sua viagem ao encontro de si mesmo, procurando evitar que a sua alma se dilua num monte de lixo.

Encenação: João Garcia Miguel
Texto: João Garcia Miguel, a partir de Peer Gynt de Henrik Ibsen
Interpretação e Música: Rui Lima e Sérgio Martins
Cenografia: Mantos
Figurinos: Alexandra Moura
Vídeo: Nave
Direcção de Produção: Maria João Fontainhas
Produção Executiva: Catarina Nevesdias e Marta Vieira
Desenho de Luz e Som: André Rabaça
Fotografia e Design Gráfico: Ana Lúcia Cruz
Secretariado de Produção: Cláudia Gomes
Montagem: Pedro Tomé
Apoio: Casa d’Os Dias da Água
Co-Produção: JGM e Companhia de Teatro de Sintra

HISTÓRIA DE UM MENTIROSO - Pinturas

Tela, 33x41 cm, tinta de esferográfica.

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